Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

a verdade de cada dia

(...) a busca de contacto humano, de estados de espírito intensos que não excluam outrem, é um fenómeno real. Faz parte do colapso do egoísmo clássico. A música corresponde muitas vezes, de um modo inacessível ao discurso, a esta exigência.

(...)

A cada encruzilhada, das palavras dos homens de Estado ao idioma dos sonhos, a linguagem surge-nos entretecida de mentira. A falsidade é inseparável da vida que a anima. A música pode vangloriar-se, pode afogar-se em sentimento, pode suscitar impulsos de crueldade. Mas não mente. (Onde haverá em Mozart uma mentira só que seja?)

George Steiner, No Castelo do Barba Azul (Algumas Notas para a Redefinição da Cultura), trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 1992



Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

or death of every brilliant eye

What shall I do with this absurdity -
O heart, O troubled heart - this caricature,
Decrepit age that has been tied to me
As to a dog's tail?
Never had I more
Excited, passionate, fantastical
Imagination, nor an ear and eye
That more expected the impossible

(...)

And I declare my faith:
I mock Plotinus' thought
And cry in Plato's teeth,
Death and life were not
Till man made up the whole,
Made lock, stock and barrel
Out of his bitter soul,
Aye, sun and moon and star, all,
And further add to that
That, being dead, we rise,
Dream and so create
Translunar paradise.

(...)

Now shall I make my soul,
Compelling it to study
In a learned school
Till the wreck of body,
Slow decay of blood,
Testy delirium
Or dull decrepitude,
Or what worse evil come -
The death of friends, or death
Of every brilliant eye
That made a catch in the breath - .
Seem but the clouds of the sky
When the horizon fades;
Or a bird's sleepy cry
Among the deepening shades.

W. B. Yeats, The Tower in The Collected Poems of W. B. Yeats, London: Wordsworth Editions, 2008

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Voo insubmisso

Que me seja concedido encontrar palavras apropriadas
Para avançar com decorro no carro das Musas

εἴην εὑρησιεπὴς ἀναγεῖσθαι
πρόσφορος ἐν Μοισᾶν δίφρῳ

Píndaro. Olímpica IX. 80-81 (Trad. Frederico Lourenço)


Rapaz-guia:
De mascarados vejo que percebes,
Mas, arauto de corte, não consegues
Do vaso ver o fundo, e entendê-lo:
Tua visão não dá para alcançá-lo.
Mas não quero meter-me em disputas;
A ti falo, meu amo, se me escutas.
(Voltando-se para Pluto.)
Não me confiaste o fogo alado
Da quadriga que venho guiando?
Não guio eu bem, como tu mandas?
Não me acho eu lá p'ra onde apontas?
Não soube meu voo insubmisso
Ganhar a palma ao teu serviço?
E sempre que por ti lutei, de toda a vez trouxe vitória:
Os louros que à fronte te dão glória
Com a mente e a mão eu os entrancei.

Johann W. Goethe, Fausto, Trad. João Barrento, Lisboa: Relógio d'Água, 2003

jamais jamais connu de lois

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Faust cherchant à séduire Marguerite

Eugène Delacroix, 1827

Mefistófeles:
E ler fisionomias é com ela:
Ao pé de mim fica assim indefesa,
O meu disfarce de mistério lhe é sinal;
Sente que sou um génio com certeza,
Talvez até o espírito infernal.
Então, é esta noite?

Fausto:
                    - E que te importa a ti?

Mefistófeles:
Também me dá um certo gozo a mim!


Johann W. Goethe, Fausto, Trad. João Barrento, Lisboa: Relógio d'Água, 2003

Domingo, 20 de Maio de 2012

E no entanto, para alguns, tudo isto
Passa velozmente, enquanto outros
O retêm por mais tempo.
Os deuses eternos estão
Cheios de vida todo o tempo; até à morte
Pode também um homem
Reter o melhor na sua memória,
E vive depois a experiência mais sublime.
Só que cada um tem uma medida própria.
Pois é difícil suportar
A infelicidade, mas mais difícil ainda a felicidade.
Contudo um sábio pode fazê-lo
Desde o meio-dia até à meia-noite,
E até a manhã brilhar,
Manter a lucidez durante o banquete.


Friedrich Hölderlin, Der Rhein, vv.197-211 in Hinos Tardios (Trad. Maria Teresa Dias Furtado), Lisboa: Assírio & Alvim, 2000